Caminhada

Sapatos na nuca
Saia amarrada
Embaraço de fios
passos marcados

Areia nos olhos
Pouca visão
Areia dos dedos
Roçando no chão

Cabelos ao vento
Cabeça no ar
Olhar esquecido
De tanto calar

Longa caminhada
Na areia molhada
Gotas da jornada
Na saia enrugada.

segunda-feira, 9 de novembro de 2009

Vida Promocional II - A visão empresarial

Ulisses entrou porta adentro com cara de psicopata. O dia havia sido um tanto conturbado. A nova empresa havia virado a sua cabeça do dia pra noite.

Uli se viu apontado por pensamentos sublimes de pagamento justo e remuneração com bônus para seus funcionáios, prêmios na festa de fim de ano, como uma bela viagem para Salvador num hotel com vista para o mar em reconhecimento ao esforço de todos durante o ano, e isso tudo, definitivamente, não fazia parte dos seus ideais de vida empresarial. A posição nova lhe atacava o espíritode maneira confusa e arrebatadora.

Além disso, a nova posição obrigava uma nova retomada em sua carreira, um salário mais modesto, verificar mesmo uma nova posição. Seu salário de dono de empresa mal dava para a manutenção de sua frota de helicópteros, quanto menos para o sustento de toda a sua família de um milhão de bovinos que, humildemente, ele criava num dos seus haras no interior do Mato Grosso do Sul. Era algo a se pensar...

Os desencontros foram reforçados pela vontade alienada de fazer o bem. Boas tardes, bons dias, um abraço amigo, grandes sorrisos, mas nada de acontecer o dribe final. Sua cabeça era nervosa e hiper-tensa e aguardava que tudo passasse no futuro, sem dar abertura de avançar o sinal.

Ulisses, pertubado, suado, cansado de insistir na recolhida, viu como única alternativa consentir com o veredito e chamou todos à reunião social. Enlaçados, os funcionários brindaram a nova aliança e se fez algazarra geral. Uma festa foi marcada para o próximo agosto, mês influente no calendário do ano e com tudo perfeito, foram consumadas as núpcias no andar de cima do prédio, com fogos de estontear o bairro inteiro.

Ao acordar no dia seguinte, Ulisses ja preocupado e infeliz, voltou ao trabalho e perdeu a primeira promoção, que foi mais modesta, graças ao seu esforço e sua nova posição social diante de seus funcionários, de homem modesto, casado e futuro pai de tantos funcionários felizes.

E a segunda perda de promoção se fez discreta e trouxe consigo um bom dia amigo, sorrisos no corredor, uma empresa alegre e cheia de gente vestindo a camisa.

E a perda da terceira promoção se fez dispersa e trouxe consigo o crescimento da empresa, gente fazendo fila para trabalhar, funcionários satisfeitos e cheios de orgulho, uma vontade imensa de ficar na empresa curtindo tudo e todos nas suas horas bem-vindas.

E a perda da quarta e da quinta se fizeram explosivas e trouxeram consigo muito dinheiro, muita harmonia, paz de espírito e um final de ano feliz para todos os envolvidos.

E Ulisses, enfim, começou a perder a noção de suas cinco novas promoções. E alucinadamente, começou a querê-las de volta, pois com tanta gente feliz e gritando seu nome, se sentia mal a qualquer ato menos heróico. O retorno das promoções ao grande Ulisses trouxeram a expansividade de volta, as portas tremendo e a cada entrada o berro original, cheio de mágoa e fúria insana.

E como num coito interrompido, seus funcionários aprenderam que tudo às vezes é nada e nada às vezes é mais nada ainda.