Caminhada

Sapatos na nuca
Saia amarrada
Embaraço de fios
passos marcados

Areia nos olhos
Pouca visão
Areia dos dedos
Roçando no chão

Cabelos ao vento
Cabeça no ar
Olhar esquecido
De tanto calar

Longa caminhada
Na areia molhada
Gotas da jornada
Na saia enrugada.

sexta-feira, 22 de junho de 2012

Determinismo e Livre Arbítrio


Boa noite, queridos irmãos. Primeiramente gostaria de agradecer a presença de todos e pedir ajuda aos irmãos espirituais para inspirarem a minha palestra e me ajudarem a transmitir a vocês, da melhor forma possível, a mensagem que eu trouxe.

Quando eu escolhi o tema determinismo e livre arbítrio eu achei que era um tema fácil, que ia tirar de letra, mas quando eu realmente fui estudar a causa para escrever a palestra, percebi que estava totalmente enganada. O determinismo e o livre arbítrio são dois temas muito complexos, que se chocam em discussões cientificas e espiritualistas até os dias de hoje. Então percebi que eu tinha um grande desafio pela frente.

Para começar a falar do tema eu vou lhes contar uma história, que acredito, vai ajudar a trazer um pouco de luz a essa questão.

"Quanto eu tinha 21 anos, eu estava em um ótimo período da minha vida, afinal nessa idade, a gente não tem muitos problemas pra resolver, normalmente só estuda e namora. Tudo é uma festa.

Eu estava no último ano de faculdade e fazia comunicação na PUC, aqui em São Paulo. Apesar de saber que minha mãe trabalhava para me manter, não tinha muito consciência do seu esforço. Achava que isso era normal, que ela tinha que me bancar em São Paulo mesmo e que eu só precisaria trabalhar depois de acabar a faculdade. Nesse período, eu estava namorando um rapaz ha uns 4 anos e estava super em dúvida se queria continuar namorando ou não com ele.

Nessa época, com um namorado de tanto tempo, normalmente eu usava pílulas anticoncepcionais, que apesar de eu não gostar, me garantiam não ficar grávida.

Eu não sei o que se passa na cabeça de toda mulher em uma certa idade que faz com que ela ache que não pode engravidar. Vocês já pensaram isso? Nossa, todas as minhas amigas pensam isso e eu, naquele momento, também pensei e pimba, um mês sem tomar pílula, fiquei grávida.

Nessa época eu ainda não conhecia a doutrina espirita e muito menos, tinha pensado na questão do determinismo e do livre arbítrio. Mas a questão e que eu engravidei e, com 21 anos, sozinha em uma cidade como São Paulo, grávida de um cara que eu nem sabia se eu queria ficar junto, eu senti um desespero sem fim."

Agora vamos ao determinismo! Como a maioria deve saber, o determinismo é a doutrina ou pensamento que afirma que tudo o que acontece na nossa vida tem uma causa, inclusive nossas ideias, escolhas e atitudes. Ele afirma que um determinado acontecimento não poderia deixar de acontecer, porque foi ocasionado por uma causa anterior. Se eu jogo uma bola para cima, com certeza ela vai subir e descer, batendo no chão. A causa da queda é a gravidade. Para o determinismo, tudo no universo e movimentado por relações de causa e efeito.

Além disso, o determinismo acha que a nossa liberdade de escolha e na verdade uma grande ilusão. Para os deterministas, as escolhas que nos fazemos não poderiam ser de outra forma, porque houveram uma sucessão de eventos que aconteceram antes dessa escolha que fizeram que você escolhesse exatamente aquilo, naquele momento.

Não é nada estranho pensar assim, porque a nossa própria natureza e regida por causa e efeito, os cientistas usam o determinismo para estudar e desenvolver seus projetos científicos, não é mesmo? Acho que aqui todo mundo já estudou as leis de Newton!

Agora vamos voltar a minha história...

"Pelo determinismo, eu engravidei porque tinha que acontecer, já que nossas escolhas e atitudes são apenas uma ilusão e o nosso cérebro é e nossa vida são comandados pelas mesmas leis que regem a natureza...

É uma ótima opção, me parece bem interessante, visto que, se eu não tinha escolha, eu ia engravidar de qualquer jeito. Então eu poderia dizer a minha mãe quando ela virou pra mim e disse: minha filha, o que fizeste!!! Ai eu diria: mas mãe, estava no meu destino, foi o determinismo mãe!!! Você sabe que tudo funciona assim! Por mais que eu quisesse que fosse diferente, isso ia acontecer.

E gente, isso realmente acontece na nossa cabeça, muitas vezes eu ainda penso que a minha filha, linda, maravilhosa, incrível estava realmente pré-determinada a aparecer na minha vida.

Antes dela, eu era uma adolescente sem responsabilidade, tirava boas notas mas não trabalhava, não ajudava minha mãe, só curtia a faculdade e o dinheiro que ela me mandava. Queria tudo mas não me esforçava por nada. Quantas vezes a minha mãe tentou arrumar um estagio pra mim mas eu continuava na inercia...

Mas quando eu engravidei, não sei, algo se apoderou de mim e fiquei mais forte, virei mulher e comecei a sentir o peso da responsabilidade. Depois que a Luiza, minha filha nasceu, virei uma leoa que precisava garantir um futuro para ela e é nisso que até hoje, eu coloco meu empenho."

Então, dentro do contexto  do determinismo, tudo o que acontece na nossa vida esta pré-determinado! E na verdade eu não tenho responsabilidade sobre o assunto, as coisas tinham que ser assim, porque se tivesse sido diferente, pode ser que eu hoje não fosse nada do que eu me tornei. Talvez nem estivesse aqui dando essa palestra nessa altura da minha vida.

Mas dessa forma, nós seriamos como máquinas. Seria totalmente possível para a ciência construir uma máquina como o nosso corpo, outra como o nosso cérebro e reproduzir tudo isso, só seguindo uma série de eventos determinados. E porque isso ainda não acontece? Será que é possível?

Bem, até aqui falamos sobre o determinismo, mas como eu disse no inicio da palestra, estamos aqui para confrontar o determinismo e o livre arbítrio, não é mesmo?

Se eu agi por livre arbítrio, na verdade, poderia não ter acontecido. Eu engravidei por livre e espontânea vontade, já que a lei de causa e efeito se estende a questões físicas e não aos nossos pensamentos e atitudes, afinal, somos livres para escolher o que queremos ou não. Ou seja, temos livre arbítrio!

Mas o que é efetivamente o livre arbítrio?

No livro dos espíritos. O codificador pergunta, no capitulo da lei da liberdade, questão 843, se o homem tem livre arbítrio, ou seja, liberdade e pensar e agir?

Os espíritos respondem:  se o homem tem a liberdade de pensar, ele tem a liberdade de obrar, porquanto, sem o livre arbítrio o homem seria uma máquina!

Na questão seguinte, eles respondem ainda que conforme se trate de espirito mais ou menos adiantado, as predisposições instintivas podem arrasta-lo a atos repreensíveis, porem, nao existe arrastamento irresistível. Sendo espirito encarnado ou desencarnado, sendo consciente do mal a que esteja ou se sinta arrastado, utilize a vontade no sentido de a ela resistir.

Então, faz sentido. Porque sem poder escolher, nos não poderíamos nem sequer pensar. Só que o fato de podermos escolher, nos traz a questão da responsabilidade sobre as nossas escolhas.

"Porque voltando a minha história, da mesma forma que eu escolhi não tomar o anticoncepcional naquele mês, eu poderia ter escolhido abortar... ou poderia ter escolhido ter a minha filha e depois, tê-la dado para adoção. Poderia ter escolhido mandá-la pra minha mãe criar. Eu tive essa opção.

Mas de certa forma, eu tive uma educação, tive o exemplo de uma mãe super leoa que criou 3 filhos sozinha, sem marido, muitas vezes trabalhando 14, 18 horas por dia para dar conta de alimentar e dar um bom estudo para que eu e meus dois irmãos tivéssemos um futuro.

Esse exemplo me ajudou a enxergar que, se eu abortasse, as consequências disso poderiam ser desastrosas para minha vida. Sempre gostei muito de ler e já tinha lido diversos depoimentos de mulheres que haviam abortado e que sofriam para o resto da vida com essa decisão. Já tinha visto casos de mães que deixavam os filhos com as avós e que os filhos no futuro, se viravam contra as mães. Poxa, eu era uma pessoa, que apesar da pouca idade, tinha muito consciência do que poderia acarretar uma escolha errada."

Consciência. Era aqui que eu queria chegar.

Ter livre arbítrio significa que temos capacidade e nascemos com essa capacidade para agir e pensar. É um dom que a gente usa para o bem e também pode usar para o mal. Mas a questão é que sempre teremos que enfrentar as consequências desse mal uso. Quanto mais consciência nós temos, quanto mais conhecimento sobre o bem e o mal que fazemos, mais nos sentiremos responsáveis pelo que praticamos.

Um exemplo prático: Coloque um martelo na mão de uma criança de 3 anos. Ela vai olhar o martelo, o martelo vai olhar pra ela e ela vai olhar pra você e pimba! Pode acertar o seu dedão ou ate coisa pior. E o que você vai fazer? Vai culpá-la? Ela não sabe que o martelo pode machucar, você sabia! Então a responsabilidade era sua por colocar o martelo na mão dela.

Quanto mais experiência adquirimos, maior consciência temos sobre as coisas. Essa consciência nasce da experiência diária, dos exemplos que vivenciamos ao longo da vida.

Não é a toa que muitas pessoas que se envolvem arduamente em causas sociais aliada a drogas, ou na ajuda de doentes de câncer, ou AIDS são pessoas que já passaram por algum problema muito próximo, já tiveram um filho falecido por causa das drogas, já tiveram um pai, mãe ou alguém muito próximo que ficou doente.

Só quando a gente sente na pele é que adquirimos a consciência do que significa aquilo e então, podemos desempenhar todo o nosso amor e dedicação para o assunto, enfrentando todos os desafios que vem atrelados a nossa luta.

Não é fácil fazer o bem. Não e fácil deixar seu filho em casa dormindo para se embrenhar pelo caminho da benfeitoria. Na maioria das vezes, o maior enfrentamento disso é a própria família, que não entende porque você gasta seu tempo ajudando o outro desconhecido e não aos seus próprios.

Toda luta tem uma causa sim, só que escolher lutar é algo maior do que uma máquina poderia fazer. Por mais que os cientistas coloquem os humanos no laboratório e tentem entender porque uma pessoa escolhe uma coisa ou outra, existem questões muito mais complexas a serem entendidas. Uma delas é da Lei da Liberdade.

A liberdade é uma condição básica para que o espirito se realize. Deus nos criou assim, por natureza queremos ser livres mesmo que inconscientemente.

Mas a nossa liberdade não é absoluta porque estamos condicionados a viver em sociedade e todos nós somos livres e por isso, sem regras isso aqui seria um caos.

Muitas vezes, algumas pessoas que tem mais conhecimento que as outras abusam disso, exploram outros indivíduos, humilham os mais fracos. Mas os espíritos já nos disseram: é contraria a lei de Deus toda sujeição absoluta de um homem a outro homem.
Portanto, temos que pensar que a liberdade legítima vem da responsabilidade legítima. Só seremos livres de verdade quando tivermos total consciência da nossa responsabilidade.

Olha que interessante. Isso quer dizer que, quanto mais ignorantes somos, menos responsabilidade a gente tem sobre os próprios atos. Mas isso também faz com que sejamos menos livres. Quanto maior a nossa consciência, mais livres seremos.

Voltemos a minha história. Se eu não tivesse consciência de que fazer um aborto seria algo que me faria mal e eu o tivesse feito, provavelmente, passaria uma vida inteira de arrependimento para aprender isso. Hoje, talvez eu estivesse aqui dando essa palestra, mas envolta em uma onda pesada, de tristeza, falando sobre essa tristeza. E não adianta, por mais filhos que eu tivesse ao longo do caminho, aquele bebê que eu tirei, ficaria para sempre como uma ferida em meu coração.

E provavelmente, eu teria que desencarnar para encontrá-lo e pedir perdão e talvez ele me desse a chance, em outra vida, de eu trazê-lo de volta e dar amor e carinho a ele.

Mas o exemplo da minha mãe, o conhecimento que adquiri nos livros e com certeza a experiência de vidas passadas, me libertaram dessa dor.

Trouxe um texto de André Luiz para pensarmos um pouco ainda sobre a questão:

“Ninguém nasce destinado ao mal, porque semelhante disposição derrogaria os fundamentos do Bem Eterno sobre os quais se levanta a Obra de Deus.
O Espírito renascente no berço terrestre traz consigo a provação expiatória a que deve ser conduzido ou a tarefa redentora que ele próprio escolheu de conformidade com os débitos contraídos.

(...)Desse modo, ninguém recebe do Plano Superior a determinação de ser relapso ou vicioso, madraço ou delinqüente(…). Padecemos, sim, nesse ou naquele setor da vida, durante a recapitulação de nossas próprias experiências, o impulso de enveredar por esse ou aquele caminho menos digno, mas isso constitui a influência de nosso passado em nós, instilando-nos a tentação, originariamente toda nossa, de tornar a ser o que já fomos, em contraposição ao que devemos ser.”

O que isso quer dizer?

Se Deus é amor e não existe nada fora de Deus, podemos deduzir que não existe nada fora do amor. O que é contrário a lei de Deus, na realidade não existe de forma absoluta e pode ser considerado algo transitório.

Se nós agimos seguindo a lei de Deus, entramos em seu campo de vibração e passamos a desfrutar desse amor. Quando a gente age contra essas lei, na verdade estamos desiquilibrando a nós mesmos e nada mais. É como uma vibração, se Deus esta em cima e você se desiquilibra, você desce seu campo vibratório. Você fica em baixo pois está desiquilibrado, mas a Criação não, ela continua em cima. E pra voltar pra cima o caminho é sempre mais difícil, pra descer é sempre mais fácil.

Esse voltar pode ser muito lento ou mais rápido, de acordo com a nossa conscientização sobre o assunto e a nossa vontade de corrigir o erro. Assim, existem espíritos que se arrependem e corrigem rapidamente seus erros e aqueles que se revoltam e as vezes, demoram séculos e séculos para resgatar os tantos erros que foram cometidos, um apos o outro.

As leis de causa e efeito são muito claras e elas podem ser percebidas no nosso dia-a-dia. Se você chega em uma loja e sorri para o atendente e pede para ver um produto, automaticamente, o atendente vai sorrir de volta e trazer o produto com simpatia. Se você tratá-lo mal e xingá-lo, ele automaticamente vai ficar com raiva de você e também vai tratá-lo mal.

Tudo o que você faz volta com uma intensidade igual e contraria para você mesmo.  Quando escolhemos o caminho do erro, a gente na verdade está criando uma reação contraria de igual intensidade que vem contra nós mesmos e isso causa o desiquilíbrio. Dai, segue que, ao adquirir consciência, descobrimos que precisamos reverter o mal que fizemos no sentido contrário, para que possamos alcançar o equilíbrio perdido.

Sendo assim, o homem só é livre de verdade antes de pensar ou de agir, porque no instante que faz uma ação, está condicionado a um retorno, mais cedo ou mais tarde.

A lei de causa e efeito não tem caráter punitivo como muitos pensam, e sim educativo e evolutivo. Ela sempre nos levará a um só caminho: o de Deus, o de amor. Quantas vezes já ouvimos que todo caminho levam ao Pai? Jesus sempre dizia isso.

"Hoje minha filha está grande, bonita. Graças ao pai, consegui, até agora, trabalhar com dignidade e garantir seu sustento com estudos. Além disso, quando ela nasceu, o espiritismo surgiu na minha vida como uma luz nos momentos em que me senti perdida, mas não me contive em ler uma coisinha ou outra. Venho estudando desde 2004, cinco anos aqui nessa casa e mantenho, dentro de casa, um estudo do evangelho no lar. A  Luiza participa do evangelho desde que tem 3 aninhos. Mesmo quando ela não queria participar, eu forçava por acreditar que isso iria fazer muito bem pra ela.

O que mais me impressiona nisso é que, depois de um tempo, não só ela, mas todas as suas amiguinhas ficavam super interessadas no assunto durante o evangelho, quem estivesse em casa no domingo, 7 da noite, tinha que participar.

E elas adoravam, por incrível que pareça! Quando você coloca uma criança para estudar o evangelho, para entender as questões que ela tem acesso, sofre mas não entende propriamente como estudo, tais como paciência, misericórdia, respeito ao próximo, a máxima do amor... elas se encontram, ficam mais conscientes e felizes por entender como agir e se sentem melhores com seus atos.

Hoje, com 13 anos, ela me fala que os amigos pedem conselhos a ela e até os mais velhos ficam admirados com o seu conhecimento sobre a doutrina e sobre as questões morais. Ela só tem 13 anos, mas há 10 estuda os princípios morais."

Não tenho nenhuma pretensão de dizer que o determinismo é o certo ou que o livre arbítrio realmente existe. Só estou trazendo fatos de que a lei de causa e efeito existe em nossas vidas e através dos nossos atos que vamos garantir um futuro melhor. Mas ao mesmo tempo, somos espíritos e nossas atitudes e escolhas são conduzidas pelo liberdade de agir e, com certeza, trazem efeitos para nossas vidas, baseado nas causas que foram geradas por nossas escolhas.

É da nossa responsabilidade, estudar, participar da vida em comunidade e mais do que isso, ajudar os nossos filhos a fazerem seu caminho em direção a Deus, ao amor, mais rápido que nós, usando da nossa experiência para dar passos maiores. Uma maior consciência sobre nossos atos nos ajudará a ter mais liberdade de escolha, pois saberemos melhor onde cada ação poderá nos levar e assim, sofreremos menos com o efeito.

Na minha vida, a Luiza foi uma boa escolha, mas tive muitas outras erradas e ainda terei um longo caminho para alcançar a Deus. Mas espero, que trazendo essa boa escolha como exemplo, eu possa ajudá-los a entender que, um dia todos nós seremos livres, porque como já disse antes, todos os caminhos levam a Deus. Só precisamos ser fortes e estarmos conectados com o alto, para que nossas escolhas sejam as melhores possíveis.

Assim poderemos ser livres de verdade.

Fiquem em paz.

(Palestra escrita e ministrada por Joyce Baena em 21 de junho de 2012, baseada em fatos reais)